Tuesday, February 16, 2010

Visão do carro




Isto é que é desfile! Isto é que é platéia! Como comentou a Mariana Mack, modelo da 40 graus, “tenho certeza que nunca desfilei nem vou desfilar para uma platéia tão grande!” Moda e samba se reuniram no desfile da Porto da Pedra, na noite de segunda-feira, na Sapucaí, Rio de Janeiro. Foi bonito? Foi rico? Nem vou responder, porque de onde eu estava, tudo foi lindo, animadíssimo, organizadíssimo: tive o privilégio de participar da Escola de São Gonçalo, sentadinha como integrante de fila A no último carro, onde desfilavam as modelos. Vamos por partes:


A chegada: surpresa – a Sapucaí tem estacionamento, farto e a R$ 20, preço fixo, muito menor do que um taxi. Estaciona-se e segue-se a horda de gente vestida de vermelho e branco, as cores da escola, pela Presidente Vargas. Ao longo da avenida e do mangue, estão enfileirados os carros das escolas que desfilam em posições pares (a segunda, a quarta, etc). As ímpares ficam do outro lado do Sambódromo, junto ao prédio conhecido como balança-mas-não-cai. Os fantasiados mais importantes chegam de calção e regata, porque as roupas cheias de babados estão em sacões plásticos, de lixo. É muito contraste, não é? Para entrar na concentração, há uma grade, onde integrantes da escola liberam a entrada dos participantes. Sem filas, nem bagunça. Lembrei tanto da entrada de certos desfiles de moda...e olhem que são 4 mil pessoas!

Aos poucos, surgem os conhecidos. Beto Neves, o responsável pelos convites ao povo da moda, que ajudou o carnavalesco Paulo Menezes a reunir estilistas, modelos e editoras. Willed, assessor e consultor, de leque vermelho
– a Porto é vermelha e branca, como meu querido Salgueiro. Giovani Frasson, da Vogue, Jacimar, da Luminosidade, Alessa, vestida de mulata, impagável. Ronaldo Fraga, de camiseta listrada e calça branca, sapato de bico fino branco, lindão este novo malandro. Lenny, toda de prata do ingles Matthew Wiliamson.
Carlos Tufvesson, pronto para se acabar, Jum Nakao. E Beto Neves pra lá e pra cá, comendando seu grupo.

Os repórteres procuram os estilistas para entrevistar. Aí é que nos damos conta de como são desconhedcidos da maioria. Nenhum repórter sabia como era o Ronaldo, o Victor. Mas a gente ajuda os colegas, claro. Até por vício profissional.


A subida: como subir no carro? Duas opções: de escada de pintor ou de cadeira. Bota o pé na cadeira, senta na beira do carro e gira, fica em pé. Uma certa acrobacia, mas pelo menos não foi o elevador do Carvalhão. Nossa, é uma caixa que enche de gente e é levada por um guindaste, que é o próprio Carvalhão. Destaque aparece, mas sofre.

O lugar das editoras fila A é em cadeiras forradas de preto, como nos eventos. Só que são presas no piso – adivinhem por que? O carro estremece todo, estrebucha para todos os lados. Se as cadeiras não são fixas, ia ser um tal de gente rolando para a pista, de salto alto e tudo.


A saída: impossível não se emocionar com o foguetório que anuncia a saída da concentração para a pista branca, onde a escola é assistida por quem pagou e por quem julga. Todos cantam o belo samba, um dos mais bonitos da temporada, que associa a moda à arte e à felicidade. Todos mesmo, incluindo os modelos. Tadinhas, elas têm a missão de desfilar nas minipassarelas nas laterais do caro. Sergio Mattos deu as ordens: “é desfile, nada de dançar e cantar!” Cada passarelinha tinha 3 modelos para revezar, cada um que saía, depois de fazer cara de nada, como exige a moda, caía no samba e cantava, dentro do carro. Um detalhe à parte. Estavam lindas, com roupas de impacto. Um longo do Tufvesson, todo em tiras pretas semidescosturadas era de aplaudir de pé. Os arranjos de cabeça, riquíssimos. Os saltos, altões. Foi um casting super-profissional. A lindeza, além de natural, era realçada por craques como Farache (que se divertiu fazendo do spray uma alegoria), Claudio Belizario, que trocou os camarins de Milão e Paris pela Porto da Pedra, Anderson Vescah, o stylist, fantasiado de pirata, todo de paetês em preto e branco. Do lado de fora, Marcelo Hicho conta que está desenvolvendo modelos de grinaldas e semijóias para noivas. Depois eu mostro. Que turma competente. E vamos nós, sacolejando!


A avenida: não tem jeito, pode ser sambódromo, passarela do samba, que todos continuam chamando de avenida. Vamos chacoalhando, atrás do belo carro em homenagem a Chanel e aos estilistas internacionais, um padrão meio Tiffany’s, de vitrais em preto e verde. Quando faz a curva, para entrar na avenida, lá está o Joãosinho 30, olhando tudo, de cadeira de rodas.
Caramba, como as arquibancadas são próximas e altas. É olho no olho, mesmo. De repente, o carro para: o salto alto do boneco representando o Clodovil trancou na grade da entrada. Um portodapedrense segurou, ajeitou, o motorista do carro desviou um pouquinho, e passamos. Tudo isso, em pânico, todos cantando sem parar.

Dentro do carro, a maior animação. Nunca pensei que o meu caderninho de anotações (do Gilson Martins) fosse virar uma espécie de tamborim. Heloisa Marra, Marcia Disitzer, Liliana Rodrigues, das que estavam do lado esquerdo, ao meu lado, mostravam que existe samba até sentado. Na frente, a modelo Marcia Britto homenageava Alexander McQueen, com túnica de cetim amarelo. Gregorio Faganello, Mauro Taubman (como ele gostava de carnaval), Simon Azulay, Dener, Clodovil eram alguns dos nomes em neon na fachada do carro.

O ritmo aumenta, vamos rápido, e a platéia acena. Vi gente de outras escolas aplaudindo, bacana. E puf, acaba. Hum, não tem escada de pintor nem cadeira de plástico. Descer como? Ora, nos braços de um fortão da LIESA. Na hora, pensei que deveria ter feito um spa antes do carnaval, mas me senti uma pluma carregada pelo atlético.

Rápido, rápido, sair dali, porque daqui a pouco chegam os carros de outra escola. Sair para onde? Por que não acreditei que havia estacionamento? A info é seguir para a estação Estácio. Léguas de caminhada, junto com Jum Nakao, que pretendia pegar o metrô também e seguir para o Calipso, em Copacabana. Outra boa surpresa: metrô vazio, com ar condicionado. Policiamento e pessoal da Liesa por todo o caminho. Nenhum cheiro de xixi em lugar nenhum.

Na saída na estação General Osório, uma foto daquelas típicas do Evandro Teixeira, o pessoal emplumado da Magueira entrando pelas escadarias, colorindo a estação de rosa. Fiz o flagra, modestamente. Depois, muito photoshop.

E a fome? E a sede? Beleza, uma loja de sucos estava a postos, com aqueles salgadões que parecem caviar depois de tanta festa. Um suco de laranja honesto e fim.

Transcrevo agora os dois lindos refrões da Porto da Pedra, que podem servir de título para muitas pautas deste ano

Eu sei que a arte caminhou

Modéstia a parte encontrou

Na moda a luz da emoção

Em cada estilo, uma expressão

Porto da Pedra eu sou

Eu sou o amor desta cidade

Pro samba que você me convidou

Eu vou vestir felicidade

Intervalo / hoje terça-feira, já saiu o bloco A Rocha, na Gávea. Sem xixi, sem gente bêbada abusada, esguichos de água, fantasias engracadas – garotas de taxi, de noiva, de Minnie, um trio segurando uma cordinha, com a placa área Vip, caras de fraldão, etc / saio desabalada, quando já estão na fente do meu prédio. Daí, a demora em postar a Porto da Pedra / nem é bom comentar, mas o carnaval do Rio está organizado, sem perder a graça.

Friday, February 12, 2010

Prévia do Ronaldo Fraga


foto Eduardo Alonso

Este aqualouco de roupa listrada, imitado pelo filhote de pernas compridas, é o Ronaldo Fraga, em plena sexta-feira, no Arpoador. Na Segunda-feira, o estilista mineiro lidera uma ala da Porto da Pedra. Marilia Pera desfila de tailleur Chanel, Victor Dzenk será destaque em carro com colunas gregas, e o Beto Neves se encarrega de reunir o povo da moda para desfilar na Sapucaí, no enredo "Com que roupa eu vou pro samba que você me convidou?"
Que foto linda, não? Que cor de céu é esta, uma das mágicas do Alonso. Que nada, é o céu de fim de tarde neste verão tórrido do Rio

Ficamos sem McQueen


17 / 03 / 1969 + 11 / 02 /2010
foto Marina Sprogis
Morreu ontem um dos gênios da moda internacional. Alexander McQueen, garoto-prodígio nos anos 1990, filho de um motorista de táxi, foi encontrado morto em Londres.
Como todo grande estilista e criador, McQueen deixa um legado de coleções e desfiles que serão lembrados por quem acompanhou as mudanças na indústria do luxo no final do século 20.
Foi justamente durante a crise da moda parisiense, quando as maisons e grifes mais tradicionais estavam sendo assumidas por grupos empresariais, como o PPR (Pinaud Printemps Redoute) e o poderoso LVMH (Louis Vuitton Möet Hennessy), que o recém-formado na escola Saint Martin, aprendiz de alfaiataria, impressionou as platéias de desfiles com temas como Highland Rape (estupro nas Highlands) ou Góticos. Com pouco mais de 20 anos foi contratado, como substituto de Hubert de Givenchy, depois de uma experiência com John Galliano, na grife comprada por Bernard Arnault, presidente da LVMH. A sociedade francesa se indignou com a chegada do jovem inglês, de estilo rebelde, que aparecia para os aplausos de jeans e camiseta, ao contrário do mestre Givenchy, figurinista de Audrey Hepburn, que usava impecáveis guarda-pós brancos de ateliê.
Mas o talento inegável de McQueen reviveu a grife que estava em decadência. Fez desfiles espetaculares, com direito a lagos e pontes japonesas e estampas de cerejeiras, trilhas com diálogos de seriados de TV, coleções com roupas de couro, gênero dominatrix, e um dos mais bonitos, visto no Cirque d’Hiver com iluminacão precária para lembrar a floresta amazônica e maquilagem com faixa vermelha nos olhos, como pintura indígena.
A marca Givenchy saiu do fundo do poço, pelo menos em prestígio. A clientela antiga podia não comprar as idéias modernas do garotão careca, mas o nome voltou a ter mística de moda.
O estilo – os temas eram polêmicos, e a maneira de mostrar as roupas também. Sapatos de saltos esculpidos, extravagantes; cabelos ou adereços em forma de chifres e corpetes em forma de armadura eram frequentes nas apresentações. Mas o conteúdo tinha a classe da roupa tradicional, da boa alfaiataria inglesa: calças em risca de giz, paletós perfeitos, drapeados gregos nos vestidos.
Em 2.000 o grupo Gucci, integrante do PPR, propôs a formação da grife Alexander McQueen, o que deu oportunidade ao estilista de sair da Givenchy. O sucesso continuou, com apresentações ainda mais sensacionais, como a passarela substituída por um tabuleiro de xadrez gigante, com as modelos interpretando as peças do jogo, ou o último, em setembro, com telão de led e sapatos de salto caranguejo. O garoto-prodígio, bad boy da moda européia, se transformou em estilista reconhecido, com premios do Council of Fashion Designers of America e o Commander of the British Empire. Foi um dos destaques da geração anos 1990, ao lado de Marc Jacobs, John Galliano e Stella McCartney, os dois últimos, colegas de estudos na Saint Martin, a mais famosa escola de moda do mundo.

Saturday, February 06, 2010

Porto da Pedra vai ser um desfile


Carro Sapucaí Fashion Week


Dinossaurinho do carro Petrock



Carro do Victor Dzenk


O Carnaval mais fashion do Rio vem de São Gonçalo, município do outro lado da baía, além Niterói. Nada a estranhar, já que São Gonçalo já foi sede da Leader Magazine, tem várias pequenas indústrias de confecções, um bom shopping. E é a região da Porto da Pedra, escola que conta com o carnavalesco Paulo Menezes na criação do enredo “Com que roupa eu vou ao samba que você me convidou” e mais o Beto Neves, da Complexo B como consultor nos assuntos de moda.
No galpão da Cidade do Samba anotei vários detalhes que nossa turma vai identificar ou ficar sabendo que fazem parte da história dos nossos estilistas:

No carro Sapucaí Fashion Week serão montadas cenas de camarins, com modelos trocando de roupa em plena evolução, cabeleireiros – o Max Weber – agitando os secadores, modelos desfilando roupas de 50 estilistas e marcas brasileiras em passarelas vermelhas que saem para fora do carro, Anderson Vescah fazendo o stylist. No alto, os nomes de vários estilistas em neon, como Mauro Taubman, Gregorio Faganello, para lembrar grandes criadores nacionais, ao lado de uma figura do Clodovil recortado de uma foto célebre dele, de salto alto. Embaixo, uma fila A, bem compenetrada, anotando tudo – espero estar lá, mas acho que vou recusar os óculos escuros, típicos de um grupo de editoras. E aí, como vou ver tudo o que acontece no grande desfile que é uma Escola de Samba?
Na cobertura Vip deste carro 50 integrantes participarão de uma festa, com Lenny Niemeyer no comando.

O Beto Neves propos a ala dos compositores, com a figura do Novo Malandro.

Uma exposição de Christian Lacroix, vista pelo Paulo no Museu das Artes Decorativas de Paris, inspirou alegorias em forma de sutiãs gigantes, que sairão pendurados no carro em homenagem a Chanel. Marilia Pera será o destaque, de tailleur. A platéia vai sentir no ar o perfume de Chanel número 5

Victor Dzenk vem à frente do carro do estilo Rococó, com uma Maria Antonieta gigante cercada por colunas gregas e vários modelos da coleção recém-desfilada no Fashion Rio pelo Victor.

No carro Barroco, que lembra Luiz XIV, o rei Sol, as colunas são revestidas por páginas de revistas de moda, o alto terá uma fonte com chafariz e a designer Rosa Leal vestida com fantasias de topázios imperiais

À frente de tanta moda, vem o carro com o tigre, símbolo da Porto da Pedra. Um tigre modernão, de piercing e aparelho nos dentes, que lidera a ala de Pedrock, com integrantes de minissaias, bolsinhas e cdelulares em pele fake, mais os bonecos dos dinossauros com jeito de Flintstones.

Como todo final de desfile tradicional é dedicado às noivas, uma das últimas alas vai surpreender e divertir com 100 homens vestidos de noiva, de salto 20. Mais diversão é garantida pela ala Quero ser Naomi.

A Porto da Pedra é vermelha e branca, e será a segunda escola a desfilar na segunda-feira de Carnaval