Sunday, May 31, 2009

Casa dos Criadores | 29 de maio de 2009




No segundo e último dia do evento que ocupou o shopping Frei Caneca, em São Paulo, a platéia continuou na maior empolgação. Enfrentou filas para entrar na sala e para subir ao heliponto, onde assistimos a uma performance de moda.
A noite começou com as Gêmeas, a dupla Isadora e Carol Krieger. Para quem não sabe ou esqueceu, as meninas são louríssimas natuirais e pintaram os cabelos de preto. Ah, esta eterna insatisfação feminina. A inspiração no México ficou bem evidente, apesar das gêmeas afirmarem que preferem ser sutis no uso das referências. Não achei tão sutil assim, já que as blusas com entalhes rendados, feitas em tecidos de listrado-galões e os bordados coloridões tinham tudo a ver com as roupas dos mariachis mexicanos. Nem as calças pretas com galões laterais ficam de fora.
Mesmo sem tanta sutileza (por que esta vergonha da inspiração?), a coleção tem um valor pelo que traz de uso das cores realçadas pelas bases pretas.

Marcelu Ferraz dedicou seu estilo New Navy aos rapazes fortes e coradinhos (segundo o próprio Marcelu). Isto é, gente da praia, sem preconceitos com transparências e amarrados. Pois a sunga do Marcelu é amarrada no lado, uma idéia bastante original, por que não? Pelo menos do ponto de vista teórico da moda, representa uma abertura de criação. Com colares e estampas de ossos – deve ser um Navy que é new por causa destes ossos, que lembram bandeiras de piratas -, passaram as camisetas com profundos decotes em V, pólos, muito verde-fluo. Rapazes de topetes fizeram o elenco coradinho do Marcelu.

Para quem conclui que há ironia nesta avaliação, aviso que está enganado. Quando escrevo que há um estilo sem preconceitos, significa que não contém idéias pré-concebidas. Por que um homem não pode usar amarrados e transparências? Porque fica menos homem, é a resposta em geral. Desde quando um laço define o sexo? Desde que se convencionou que rosa, laços e flores são detalhes femininos. Convenção é uma história gerada por gente que faz questão de criar identidades visuais. Alguém ainda acredita em identidade imutável ao longo dos séculos e das civilizações? Então, no mínimo tem que estudar indumentária e ver que muito homem já foi para guerras com plumas no capacete e muito rei mandou muito coberto de rendas e laços.


No hay banda é um coletivo, dos poucos que dão resultado homogêneo. A luz, seus reflexos e a refração foram pontos de partida para a série de vestidos montados em pregas e recortes, em gelo, azuis e brancos. Assimetrias nos decotes e nesgas são detalhes visíveis em meio a modelagens elaboradas em curvas e geometrias mais rígidas.

Tony Jr. criou propostas para a mulher que aprecia a Arte. O trabalho de maquilagem do Max Weber quase roubou a cena dos vestidos em tons de pele, verde e coral, com triângulos coloridos aplicados em decotes e palas. Repetiu-se o efeito de bocão, tipo McQueen, mas as cabeças com adereços quase-egípcios deram bons efeitos.

Um dos pontos altos da noite e da 25ª Casa dos Criadores foi a interferência fora da agenda oficial, com roupas feitas em moulage com tecido de pano de chão. Todas, vestidas por modelos negras, representando o poder emergente das classes C e D. Muito bom, o trabalho de Renan Serrano e Fernanda Ruiza, apresentado a princípio como um defeito nos equipamentos de datashow.

Andréa Ribeiro faz Diva, a grife sempre feminina e delicada ou glamorosa. Desta vez, Andréa superou seus limites em matéria de feminilidade, chegou a assustar pela quantidade de babados, laços, cristais e flores nos vestidos inspirados por suas coleções de papéis de carta. Uma Maria Antonieta de saias curtas, é a definição que melhor se encaixa no conceito. Muita saia franzida, mangões nervurados com cristais, até os homens usam bermudas e paletós de adamascados dourados. Lá pela terceira roupa, o olhar acostuma com os exageros, e descobre que há um aspecto interessante, na linha de Marc Jacobs e bons cortes, tirando os excessos. Até que um decote contornado por cristais tem seu encanto...

O best-seller O caçador de pipas levou André Phergon a mostrar pipas penduradas como mochilas ou aplicadas em tricôs e calças. Tirando o mote, André alerta para o uso dos tecidos changeants (ou furtacores), em verdes e azuis, os cetins pretos siliconados, os jeans manchados ou raw.

Exagero é pouco perto do trabalho do Walério Araújo. Foi o único do evento a ser aplaudido na entrevista que Maria Prata faz, antes de começar o desfile. Tem um fã-clube fanático, que reconhece o valor do cara que tira as sobrancelhas, samba como uma passista e sabe andar de saltos altos melhor do que muita modelo. Ninguém espera dele uma alfaiataria dura, um drapeado de alta-costura em seda. Nada disso: desta vez, tudo brilhou nos dourados e rendas, nas pedras e na malha metálica dos macaquinhos, macacões e no incrível vestido feito com tampas de azeite. Ok, a causa foi o patrocínio do azeite Andorinha, o que não diminui a graça da imagem na passarela. Para Walério, os homens podem usar bordados com pedras na frente da sunga e sapatos peep-toe.
Muito disco? Repetitivo? Prefiro outra definição: coerência e bom-humor.E viva o Walério!


Final de festa, lá pelas 11 e tanto da noite forma-se a fila para subir ao heliponto do shopping Frei Caneca. Uma tentativa em outra edição da Casa dos Criadores foi frustrada pelo frio e pela chuva. Nesta noite de 12 graus, a chuva deu um tempo e vimos a performance da Onono, um acúmulo de formas em cirê preto, jeans e detalhes em acrílico, como ombreiras quadradas. Nada demais, como se imaginava. Quem exigiria altas modas no alto de São Paulo?

Intervalo / quem usa estas roupas? Nem se faz esta pergunta, no final da Casa dos Criadores. São idéias que talvez estejam nas vitrines daqui a três anos, que atraem gente esperta, que prefere ver ao vivo estes ensaios de moda do que comprar revista internacional para se dizer antenada / na saída, uma multidão na rua Frei Caneca. É o movimento da naite paulistana, que lota os bares e casas noturnas diversas da região entre esta rua e a Augusta. O pobre do taxi chamado para a volta ao hotel só conseguiu confirmar e chegar ao shopping quando já estávamos no quarto, depois de desistir do taxi e subir a rua a pé. O movimento continuou de madrugada: sei disso porque saí do hotel às cinco da matina, para viajar de volta ao Rio. Neste horário, pegamos outro engarrafamento porque a multidão começava a voltar para casa, ao amanhecer, parando só nas carrocinhas de cachorro quente e outras iguarias urbanas nos podrões, como dizem os nativos.


Na Bahia, a Anne Massa, 23 anos, venceu o concurso Novos Criadores da Moda, promovido por Vera Pontes, no evento Expo de Moda. Anne fez uma releitura do trabalho de Fernando Peixoto, arquiteto responsável pelos prédios da Casa do Comércio e do Centro de Convenções da Bahia. Anne ganhou troféu, livros, bolsa de estudos do Senac e máquinas profissionais, e mais o ingresso no projeto Talent Box, que faz incubação e gerenciamento de carreira para novos talentos da moda.