Friday, March 06, 2009

Salão ocupa lugar de passarelas em Paris

O Tranoï, salão que recebe compradores do mundo inteiro, interessados em ver as novidades em roupas e acessórios em estandes de feira tradicional, está ocupando duas salas do Carrousel do Louvre. Uma feira, no espaço onde já vimos Chanel! É um dos sinais de mudanças no sistema da semana da moda parisiense. Estamos em tempo de vendas, não apenas de show.
Nos convites, em vez dos lugares glamurosos, tendas armadas no Jardim das Tulherias ou em frente à Torre Eiffel, os endereços obrigam a uma pesquisa nos mapas do metrô, de tão fora do circuito chique são os galpões e salinhas. Sai mais barato desfilar nestas lonjuras do que o aluguel médio de 25 mil dólares das salas do Louvre.
O número de convidados diminuiu? Ainda não se sabe, porque muita gente deve chegar de Milão até amanhã, sábado. A sala de Lanvin estava lotada, Dior idem.
Gaspard Yurkviech
O russo Gaspard Yurkievich mantém a jovialidade. Desta vez, falou de paixão, amor e prazer, ao som de músicas da peça Sweet Charity e inspiração nas coreografias de Bob Fosse em Cabaré. Bonitos os vestidos de decote reto, corte solto; as calças de alfaiataria, de cós alto, as saias drapeadas em cetim. As mangas longas caem soltas e franzidas até próximo dos punhos, dali em diante se ajustam. A estampa é a mesma cabeca feminina do convite, sobre fundo bege-claro. Cabelos em coque baixinho, bem anos 30. Uma continuação do estilo de setembro, da coleção de verão, é o decote com bordados ou rendados em casacos ajustadinhos ou em chemisetes de seda. As saias são montadas em dobras na frente, melhor ver na foto para entender a modelagem. No final, os microvestidos em paetês vermelhos, cinzas e ouro.

Ficha
Música (trilha de Sweet Charity): Dani Siciliano
Styling: Sarah Ellison
Casting: Patrizia Pilotti
Make: Irena Ruben com MAC
Cabelos: Esther Langham com tecni art de L’ Oréal Professionnel
Arte nos paetês: Sylvie Auvray
Lingerie: Eres
Site: www.gaspardyurkievich.com

Intervalo / sentar no último lugar, quase na entrada da passarela, tem algumas vantagens. A que mais gosto é que dali se vê ou a modelo se preparando para entrar na sala ou saindo, correndo para o camarim, para trocar de roupa. No desfile do Yurkievich, era divertido ver que as meninas saíam das luzes e dos olhos da platéia, e faziam passinhos de dança, iguais aos das coreografias de Bob Fosse para Sweet Charity / Antonio Lopez, o grande desenhista de moda dos anos 60/70 foi uma das referências do russo Gaspard. Comecei como ilustradora no JB admirando o traço dele / gracinhas dos fotógrafos: cada vez que a assessora de imprensa entrava com um convidado, toda loura, rebolante, com vestido de seda, recebia assobios e gritos dos rapazes


Lanvin
17h30

A platéia se instalou nas arquibancadas forradas com almofadinhas numeradas, na sala a meia-luz, toda pintada de preto, com o piso molhado. No centro, garçons sustentavam bandejas com bebidinhas e comidinhas. Sempre tem um clima de coquetel em Lanvin.
Quando a luz apagou de vez, atrás do portal de rosas, abriram-se cortinas pretas e surgiu o restante do galpão enorme, em estado natural. Lindo.
Um cenário perfeito para a coleção do Alber Elbaz – corre o boato que seria a última para Lanvin -, uma beleza de estilo retrô, meio anos 40, mas com a modelagem assimétrica, com repuxados, típica do Elbaz. Muito preto, com cintinho fino, saias estreitas, botinhas e escarpins de plataforma embutida, com salto curvo, em verniz. Vermelhos, pretos com bordados prata, tules em tom pele. Tailleurs falsos. Como? Na frente, parece um casaco ajustado, lembrando modelos do Thierry Mugler ou do Azzedina Alaïa nos anos 80, com basque. Só que não é basque, é uma dobra que existe só na frente. A modelo segue, e mostra que nas costas é um vestido justo, comum.
Este truquezinho se repete em vestidos ricamente rendados, em tecidos devorês ou bordados. Na frente, uma festa de enfeites e luxos; da costura lateral para trás, só o tecido liso.
Cabelos em rabos-de-cavalo, colares grandes. Cintos estreitinhos, presos com nó, simplesmente.
No final, a perfeição do longo de veludo de seda preto, com o cintinho, usado com bota baixa.

Outra economia nesta semana é a ausência de qualquer tipo de informação. Nenhum papelzinho, nenhum crédito para as equipes.

Intervalo / Paris é pequena, são uns 10km na vertical (de norte a sul) e 10 na horizontal (de leste a oeste), no mapa. Mas como a gente reclama quando sai do circuito clássico da moda! Há muito tempo que não tinha que estudar o mapa do metrô para saber como chegar em alguns buracos onde acontecem os desfiles. Lembro quando ia para uns depósitos de tapetes depois da estação de Austerlitz. Ou quando afundava os pés na lama, no Bois de Boulogne / agora, ir para perto de Bercy pra ver Lanvin parece uma Conchinchina. Bom, povo da moda é fresco mesmo, rarara

Etcetura
19h40
Duas irmãs, Ezra e Tuba Cetin, vieram da Turquia para estrear a marca Etcetura em Paris. Corajosas, as moças. Trouxeram inspirações do próprio país, como a homenagem a Anna Komnène, autora do primeiro livro de História, no século 11. E os mosaicos da igreja de Santa Sofia, em Istambul.
Chamaram os convidados para uma sala espelhada com muitos lances de escada, puf, puf, em uma passagem na rue Montmartre. Na coleção, casaquinhos cinturados, estruturados, em bege ou preto, sobre colantes com capuz. Futurista. Calças e vestidos em couro preto, com pregas arredondadas. Anos 80. Saias com pregas em curva. Balenciaga. E ficamos procurando as personagens da História, os mosaicos da igreja, o colorido turco.
Até que as luzes se apagam, e surge na boca-de-cena uma mulher nua, com auréola e pose de Virgem bizantina. Fica lá e sai.
O que os novos que chegam aos grandes centros lançadores, como Paris, não entendem, é que todos esperam novas idéias. Nada de trajes típicos, mas algo diferente. Ezra e Tuba chegaram perto, quando mandaram os convites com uma pedrinha azul dentro do envelope. Típica da Turquia. Mas podia ter mais coerências deste tipo na primeira apresentação da Etcetura.
19h55

Ficha
Make: Takuya Motohashi para Menard
Cabelos: Yusuke Taniguchi para Menard
Trilha: Zeynep Arkok (dono de um iMac, que comandou o playlist)
Sapatos: Hotic (cobertos por meias pretas, vai entender)