Tuesday, September 30, 2008

Nem sempre o mais dificil de uma semana de moda é conseguir os convites para os desfiles importantes. Muitas vezes, eles estão na mão, separadinhos por dia da agenda, assinalados no caderno, e mesmo assim, quem garante que serão entregues na porta da sala do evento? O que pode acontecer segue esta lista:
A feliz proprietária esquece dos convites no hotel, e só nota na hora de entrar no desfile mais importante. Pode ser que a assessoria tenha paciência de ver se o nome está na lista de imprensa.
A desligada vai almoçar, fazer pipi, atender o celular em um canto, e deixa o precioso pacotinho sabe Deus onde. Claro que nem lembra quais eram os convites, para seguir a solução acima
Outra bem comum: roubo! Pura e simplesmente, acontece. Na portaria do hotel, dentro da sacola aberta. Ou puxado da própria mão que se agita, pedindo para ser vista no tumulto da entrada do desfile. Esticou a mãozinha para cima, vupt, sumiu o convite. Ridículo até de explicar na porta
E aqueles endereços distantes, desertos e inóspitos? Nenhuma cidade deste mundo doido é segura para alguém se desbancar para um lugar no fim da linha de um metrô, de onde ainda se atravessa uma ponte e chega a uma festa-desfile que começa às 23h. Ou para um estacionamento transformado em passarela, às 21h. Muitos destes convitinhos ficam em um canto da bolsa de quem não tem à disposição um Mercedes-Benz para circular, mimo do evento.

Interessante é que pelo menos em Paris há um conjunto de 3 salas excelentes, no subsolo do Museu do Louvre, construídas exatamente para os desfiles. Não esqueçamos que o povo da moda tem suas manias, e uma delas é rejeitar lugares que serão usados por outros estilistas. Ok, faz parte da emoção, empreender estas explorações por lugares que, se não fosse para ver desfile, nós jamais conheceríamos. Que me lembre, desde 1980 conheci depósitos de tapetes, muitos estacionamentos, mosteiros, igrejas abandonadas, chateaux que mais tarde viraram condomínios de luxo, estações de trem, estúdios de cinema, teatros antigos, estufas e estádios de futebol. Mas que dá preguiça, dá...

Falo agora do Gaspard Yurkievich, russo que, como o coreano Andrew GN, está rapidamente assumindo um lugar na primeira linha das marcas. Claro, é diferente uma grife que já foi Maison, nascida antes dos anos 80. Estes novos enfrentam um mercado diferente e uma competição maior do que os tradicionais. Fora os profissionais de moda, são poucos os que reconhecem estes nomes, ao contrário de um Dior, um Saint-Laurent, um Givenchy.
Mas o Yurkievich está conseguindo. A sala enche, a coleção tem expressão. Ele é o novo diretor artístico da Rodier, indústria de tecidos francesa que já apadrinhou Poiret, Chanel e Dior. Vejam só, chamaram o russinho, para revitalizar a marca que tinha os twin-sets usados por Brigitte Bardot e Grace Kelly.
Um quarteto e coral acompanharam a cantora Dani Siciliano na canção Why, o tempo todo. No estilo, capas-chemises beges com nesgas pretas, bordados metalizados prata sobre calças curtas e fofas, cinzas. Vestidos soltos e curtos, com alças arredondadas, abotoadas nas costas, onde também balançam martingales. Nas costas, um desenho freqüente nesta semana, o Y. Franjas cobrem rendas pretas sobre forro rosa, em vestidos curtos. O conceito anunciado era a Arquitetura fluida, o chic de alta-costura e a androginia da parisiense. Mas foi mais para anos 1920 e um pouco Déco.
Na complementação, meias curtas e sapatos de altos saltos bisotados ou esmaltados.
Saltos altos são quase obrigatórios nesta temporada. Muito altos, na passarela e na platéia. Sempre como sandálias de tiras grossas, peep-toe e plataformas recuadas. O solado lembra Charles Jourdan nos 70.

Balmain mantém o pique roqueiro, assinado por Christophe Decarnin. Admite até os jeans claros e rasgados, as jaquetas de uniformes, tipo Beatles, e a trilha com Madonna para confirmar o espírito. Tem também os saiotes tutu, que a loura usou no filme Procura-se Suzan deseperadamente. Bom, pode fazer sucesso, mas podia ser mais inovador. Em compensação, John Galliano continua na pole position, ao lado de Karl Lagerfeld, como um criador capaz de recriar indefinidamente uma marca como a Dior, de mais 50 anos. Na tenda toda preta por dentro, incluindo as cadeiras e os cartões com os nomes dos convidados, ele mostrou o Chique Tribal, composto por vestidos curtos, de cintura fina e saia rodadinha por pregas soltas. Eles eram os chiques, os cabelos presos pelo Orlando Pitta em coque-ampulheta, estilo africano, eram o Tribal. Como bom inglês, J.G. não perde espaço sem um tacheado. Frente-única drapeada, tops com pregueado cinturado, tomara-que-caia com franjas. Ou poás irregulares, étnicos.
No colorido, laranja, bege, amarelo-limão, azul-claro, cinza, cinza, cinza. O bordado em barras, visto na egípcia Maria Bishara, no francês Michel Klein apareceu também no inglês Galliano, no vestido rosa com bordados prata. Tribal-decô.
A novidade vem agora: além de continuar com o legging preto, o python e a camurça , Dior aposta na galuchat, a macia e fosca pele da arraia. A pista veio na capa do presskit, em papel preto, fosco, com o mesmo toque macio da arraia.

Intervalo / quem já foi ao Sea World, na Flórida, sabe como é o toque da pele da arraia. Elas estão lá, as pobres, no tanque, todo mundo passa a mão, e reage, ui! É aveludada, mas macia demais / John Galliano não vai mais até o final da passarela, vai até o meio, com seu cabelão longo, liso e louro, colete preto sobre a pele, calça preta e boots, provavelmente Dr. Martens / hoje, enfim, Paris recuperou sua cara. Chove, 15 graus, tudo cinza / as meninas andam de trench-coat pouco acima dos joelhos, ajustado, em preto ou bege. Muito mais sandálias altas do que botas


Muito engraçado, o jeito de adaptar a roupa à demanda do mercado. O que mais vende? Bolsa. Portanto, o casal Marie Therese e François Girbaud pegou a referência na bolsa, suas alças, bolsinhos, fechos e correntes, para inventar calças jeans curtas, de gancho baixo (na rua, ele não existe) e estes detalhes típicos das grandes bolsas que amamos. E mais, as laçadas vermelhas, presentes em vestidinhos, saias e calças. E aqueles bolsos externos das sacolas de jardinagem, formando as saias. Segundo a dupla que assina, há uma calça nômade, dupla e reversível, que representa um novo espaço de moda. Para quem segue o estilo jeans da Marithe Girbaid, aviso que a cor é escura, azul ou preto, em pesos leves.

Intervalo / o mineiro Victor Dzenk trouxe sua coleção barroca, desfilada no Fashion Rio, para o show-room parisiense, no hotel Regina. É a quinta vez que ele vem, e faz parte de um show-room que agrada nos Emirados. “Já vendemos para a Barney’s de Dubai, mas na estação passada tiramos pedidos também para lojas de Saint Tropez e cidades da Espanha”, comentou Dzenk, que já se prepara para o Minas Trend Preview, com uma prévia do inverno, de 12 a 16 de novembro.

Uma das responsáveis por esta febre de sapatos altos, além de Nicolas Ghesquière na Balenciaga, é a grega Sophia Kokosalakis. Desta vez, os saltos são esculturais, retorcidos, em prata, com tiras em vários desenhos, quase sempre em preto. Na roupa, tops com aspectos de armadura metalizada em ouro velho, ou colares grandões, metalizados envelhecidos, cabelos em coque no cocuruto, também arrematados por um toque metálico. Foram os primeiros dourados até agora, mas em versão grega, isto é envelhecidos.
Sophia faz calcas curtas, largas no alto, saias com dobras verticais, vestidos pretos com o decote recortado como um ponto ajour, preso por clipes metalicos. Até aqui, tudo em cinza, bege e preto. Daqui em diante, turquesa-Mikonos, vermelho-alaranjado e um azul-princesa com borlas na barra.
Dá para notar a identidade da estilista. Assim como Marie Bishara usou o Egito, Sophia marcou com Grécia. Nenhuma ficou com cara de fantasia nem traje típico. E ambas se integraram no espírito da semana. Vá lá, sempre fica um pouco do que se comenta, como os modelos tridimensionais lançados na Balenciaga há mais de um ano. Mas a personalidade acaba se destacando.

Falando nisso, tem o Manish Arora. No terceiro desfile em Paris, o indiano já atrai uma legião para lugares fora do circuito nobre. Desta vez foi o Cirque d’Hiver , que fica em frente à estação Filhas do Calvário. Que nome. O Manish usou o tema do circo para extrapolar em microvestidos estruturados, montados em babados, cristais coloridos, estampas de palhaços e malabaristas e até uma saia-carrossel que girava. Bonito, claro. Por baixo de tanta fantasia, e à frente dos mímicos de preto, que seguiam as modelos, notava-se a base de um verão arquitetado com uma textura de neoprene, com alça em Y e bojos em cor contrastante. Por exemplo, azul com bojo pink. Olha uma moda praia pintando aí, à la indiana.