Sunday, June 22, 2008




Rosa Chá

Por enquanto, não tenho a foto mais importante do desfile. Por incrível que pareça, é de um modelo sem roupa, tomando banho, peladão. Este foi o ponto de partida do desfile de moda praia masculina do Amir Slama. Quatro sereias, Carol Ribeiro, Michelle Alves, Isabeli Fontana e Raica Oliveira fizeram o contraponto, com sutiãs de biquínis e bermudas cargo cáquis. Enquanto isso, a rapaziada passava, com suas sungas mostrando o cofre, algumas maiores, com estampas onduladas. No elenco, mais aplaudido do que o pelado, o Paulo Zulu, lindão como sempre.
Um desfile incrível, de grande ritmo.

Ficha: direção: Amir Slama; direção de desfile: Paulo Borges; styling: Matheus Mazzafera; beleza: Max Weber; cenografia: Luiz Rossi; trilha: Zé Pedro







Ronaldo Fraga
A transposição do rio São Francisco foi a denúncia da apresentação do Ronaldo. Ao som de Tetê Spínola e barulhos dos corpos dos dançarinos do grupo Barbatuques, vimos as vearias fases do rio transformadas em roupas, na sala com mais de 150 bacias cheias de sal grosso. Começou com os vestidos em tapeçarias na cor da água, depois, os cáquis, com bordados de Pirapora atravessados. Na foto, o vestido de escamas de organza lilás, lindo, na outra, o final, com o elenco sentado no piso da sala. Muita gente achou que eles jogariam o sal para cima da platéia. Como isto não aconteceu, a galera jogou o sal dentro da bolsa.

Ficha: bordados da família Matizes Dumont, de Pirapora e Stela Guimaráes, de Itabira; trilha: Tetê Spínola e sons do corpo dos integrantes do grupo barbatuques; beleza: Marcos Costa (Natura); direção de desfile: Roberta Marzolla



Isabela Capeto



Cheia de amigos no México, para onde ela e o marido, Werner, vão com freqüência, há muito tempo Isabela Capeto queria montar uma coleção mexicana. No desfile em um galpão que serve de acervo para a galeria de arte Fortes Vilaça, na Barra Funda, Isabela mostrou algumas peças antes do show. "Vamos mostrar algumas cores, quase tudo em preto, cáqui, dourado. Mas a cartela inteira está nos banquinhos da sala", apontou. Mariachis, lutadores de lucha libre, relicários, Frida Kahlo, as treliças e as louças de Talavera viraram roupas ricas e bordadas com muito metal e paetês dourados, botões iguais a dentes (que os lutadores perdem nas lutas). No meio das araras, muito xadrez. "Isto não é da coleção, são roupões que fiz para as modelos, porque pensei que ia estar muito frio. Mas esquentou, nem foi preciso", explicou.



No desfile sobre as caixas de despacho das obras da galeria para os salões internacionais, as roupas ganharam mais força. O vestido-regata com top-relicário, cheio de medalhas e cruzes douradas, o bege com sinhaninhas pretas nos babados, o shorts de piquê com babydoll e jaqueta jeans com pala dourada. Mais jeans na calça flare, o coração, eterno motivo da Isabela Capeto, aplicado em ouro sobre camiseta, com colete e calça preta. Os cabelos trançados têm fitas douradas no meio. Entre os destaques, a calca preta, com babado na barra e camisa branca e o vestido preto com máscaras e flores bordadas com contas douradas.
Acessórios: sandálias plataforma dourada com tiras de couro atanado; cordão com pingente de coração

Ficha: diretor de arte: Alberto Renault; cenografia: Luiz Biasi; stylist: Felipe Veloso; beleza: Max Weber; trilha: Dani Rolland; catering: Cia. Gastronômica


André Lima


Nada mais difícil do que encerrar um dia de evento. Em geral, perde a cobertura do dia seguinte, porque os jornais fecham as últimas edições às 23h. Parte da platéia, cansada, já foi embora. Só que o André Lima gosta, e prefere o sábado. Deve dar mais tempo para arrematar suas propostas, que desta vez foram mirabolantes. Ele interpretou as assimetrias e geometrias com...laços e borboletas! As cores, chamou de carpa, azul-acinzentado, perfume (lilás), pink, marinho, pérsia (amarelo), preto e branco. Na passarela com fundo de molduras, passaram minivestidos com pregas invertidas, o maiô com ziguezague na frente, florões aplicados em vestido drapeado preto. Ao som de Veredas Tropicais,entraram laços e pontas que extrapolavam as formas dos modelos. Foi um verdadeiro mostruário de técnicas de costura de ateliê.
Ficha: estilo: André Lima e Carlos Cardoso; styling: Flávia Pommianoski e Davi Ramos; direção: Roberta Marzolla; set designer: Marton & Marton; beleza: Robert Estêvão para MAC; trilha: Zé Pedro

Saturday, June 21, 2008



Cavalera

Isto é que é conceitual: todas as roupas verdes, um fundo com modelos levitando, máscaras com cabeças de bichos e monstros, música alemã. A Cavalera deu show total, com roupas luxuosas em tecidos de qualidade, galochas western com cristais e saias de cós alto e capas transparentes com borboletinhas coloridas estampadas. Altos conceitos de mistérios, luz e sombra e magia, sob a égide de um poeta dadaísta, Tristan Tzara. Marcelo Sommer lidera a equipe de estilo que inclui JP Porangaba (o antigo JPig), Paulo Carvas e Emilene Galende. E Alberto Hiar reforça o apelido de Turco Louco, com um desfilão destes.

Ficha: direção: Alberto Hiar; criação: Marcelo Sommer; direção do desfile: Alberto Renault; styling: Davi Polack; cenografia: Pier Balestrini; efeitos especiais: Schiyozi Izuno; make e cabelo: Robert Estêvão; trilha: Dacio Pinheiro


Intervalo - sonho de consumo a partir desta SPFW: um monitor que é tela de TV também, o M19W531, 19 polegadas, LCD (Liquid Crystal Display, para quem não sabe), da AOC - baralhos estão na moda. Duas grifes deram de brinde exemplares da Copag - Sabrina Parlatore toda elegante, de casaco de couro e calça jeans escura, bota preta de salto. "Nada tem marca famosa", declarou às repórteres que cercavam - Adriane Galisteu foi soterrada por fotógrafos na sala da Iódice, quando chegou. Vamos combinar, que foi ela quem começou a onda de culto às celebridades no Brasi. Ela merece todos os flashes - uma outra vip, na fila A, apavorada com a eminência das entrevistas com perguntas como "o que é moda para você?". "Bem que eu disse que não queria sentar agora", reclamou para a amiga não-famosa


Alexandre Herchcovitch (feminino)
O mesmo protesto contras as guerras e conflitos religiosos que usou na moda masculina, foi desenvolvido no feminino em tons mais suaves. Mais muita feminilidade, porque as roupas tipo uniformes militares em tons de bege ganharam tufos e barras de babadinhos, por todos os lados, ombros, costas, decotes e fundilhos dos shorts, vestidos e saias. Lembrou uma coleção do próprio Alexandre, a dos tapetinhos de banheiro, de babadinhos de plástico



OEstudio

Uma pausa na moda toda, como se fosse obra de um grupo de leigos, mas com o empenho de modificar o que é consagrado como bom, que é um desfile contemporâneo. Vale a tentativa, já que eles têm como lema o Try & Error. E fizeram um show interessante, com acertos como a banda de Wii, os acessórios e os vestidos criados para o lounge da Fiat. E erros como as estampas pobrinhas, lembrando os anos 60 e as roupas, ligeiramente inviáveis e completamente obediente ao que se vê na maioria dos desfiles desta semana. O que não é o que se espera de um grupo inovador, mas foi bom. Por mais que pareça estranho, foi bom.

Ficha: direcão: Pazzeto; trilha: Manga Jingle; desenho de luz: Carina Camurati; músicos: banda de Wii; maquilagem: Lavoisier; cenografia: OEstudio; designers: Anne Gaul, Christine Rabello de Castro, Fabrício da Costa, João Falcão, Nobuyuki Ogata, Nina Gaul e Peter Gaul



Anabela Baldaque
A estilista portuguesa deu enfim o toque de verão na SPFW. Vestidinhos em cores primárias, decorados com flores e arabescos brancos, curtos e de cinturas deslocadas; shorts bufantes com batas de estampa de patchwork em barras e vestidos soltos, de alças são simplicidades gostosas para os dias quentes. Rosas colorem estampas e enfeitam os cintos, presas na frente ou nas costas. Nada demais, mas prático, feminino e usável. Podemos dispensar as sandálias-tamancões e adotar os cabelões desfiados à la Amy Winehouse

Água de Coco
Mares da Grécia viraram biquínis e maiôs com estampas de cachos de uvas, azeitonas, alças de pedras, tons violetas, em Lycra-jérsei. Ou tanguinhas presas por cordinhas, quase desnudantes. Para sair da praia, nada como pantalonas com bolsos, lindonas. Para vestir peças tão chiques, nada como Letícia Birkheuer, em grande forma. Um belo desfile, em cenário inspirado nas ilhas gregas, mas que parecia uma obra de Escher, cheio de escadarias

Neon
Um sucesso, uma cobiça, os vestidos, calças e chemises do Dudu Bertholini e da Rita Comparato. Estampas assinadas por artistas plásticos abordaram o tema Mulheres das Ilhas e lançaram a moda praia, na marca Batom. Carol Ribeiro, Juliana Imai, Bianca Klamt usaram as calças ajustadas, as camisas e os pareôs com motivos indígenas, afros e reproduções de Gauguin. As bijuterias são grandonas, da Christine Yufon. No final, franjas de havaianas, e a Keyla de busto à mostra

ficha: estilo e styling Rita Comparato e Dudu Bertholini; cenografia: Marton; trilha: Boris Fratogianni; maquilagem: Lau Neves para MAC; cabelos: Paulo César Schettini

Intervalo: quando os flashes começam a perseguir uma celebridade, alguém grita "Xuxa! Xuxa!". A rainha dos Baixinhos ainda é ícone na moda - na Neon, batons escuros- definitivamente, a vinheta de abertura dos desfiles é enjoativa. Ninguém agüenta mais ver japonesinhas de frente, costas e perfil

Friday, June 20, 2008


Reinaldo Lourenço

Mais um belo desfile do Reinaldo, mestre da alfaiataria, que enveredou pelo caminho do artesanato. Nem pensem que é bordadinho e fitinhas: trata-se de tecidos refeitos a partir de tressês de fitas, em forma de vime de palhinha, como bolsa de couro da Bottega Veneta ou em forma de flores. Lindos resultados, valorizados pela simplicidade dos modelos de inspiração 60 e nas bonecas de porcelana francesa. Nada preto, porque ele considera que é tempo de branco, o que abre um mercado de luxo, as noivas. Boleros, saias montadas em p;regas, com barras nestes tramados, bainhas que caem bem graças ao arremate de perolinhas, um lote de dourados para quem não se satisfaz com primores artesanais. Pode ser que alguma exigente torça o nariz para as barras tipo vime, porque não quer ser confundida com uma cadeira Thonet. Mas duvido que ela tenha algo contra os tressês de flores. São peças para pendurar na parede, como obras desta arte que é a moda

Intervalo / Bomba, bomba, com o diria o Zé Simão. Gucci Westman saiu da Lancôme Paris e assumiu a direção artística da Revlon. Para nós, consumidoras, é sinal de que a Revlon deve voltar a ser inovadora em maquilagem / outra bomba, detonada pelo Milton dos Santos, consultor do salão do Prêt-à-porter de Paris. Já que é reponsável pela descoberta de talentos na América Latina, o Miltinho esteve aqui em São Paulo e costurou uma parceria com entidades ligadas à moda brasileira. Quando estiver tudo assinado, revelo quais são / impagável, a Lu Lacerda. Ontem notou que a sola de sua bota western estava soltando. Imediatamente pediu a uma fotógrafa, a Clarissa, que registrasse o acessório, para publicar no seu site. Legenda: “eis uma bota descolada”, algo por aí. Adorei / Falando em botas, os modelos com estrelas e céus da coleção de inverno do Reinaldo enfeitavam pés de convidadas na platéia / a moda do chapéu começou pelo povo da moda. Pena que é cruel, sentar em uma cadeira atrás de um enchapelado


Maria Bonita
Um orgulho para a ala carioca da platéia, a beleza da coleção Maria Bonita, baseada nos regionalismos do Nordeste. Ao som do Dorival Caymmi passaram os macacões largos, de bolsos espaçosos, os chemises amassados, soltões, as calças e camisas em renda renascenca lilás. Tricôs feitos à mão cobrem vestidos de faixas como pinceladas, em fundo cinza. Os chapéus da Muggia parecem feitos de cordões, outro tema da coleção. Cordões ajustam blusões e macacões brancos. E os sapatos? Uma maravilha, o modelo oxford feito em palhinha.

Ficha: estilo: Danielle Jensen; acessórios: Arysalva Couto, Jailson Marcos; beleza: Celso Kamura (MAC); estampas: Pat Lobo, Raul Loureiro e Claudia Warrak; styling: Pedro Sales


desfile Alexandre Herchcovitch




Blue Man
Será que a Blue Man voltou, viu e venceu? Achei a platéia meio fria, em relação ao desfile. Cauã Raymond foi bem recebido, André Rezende, o surfista urbano bonitão estava no elenco de homens de sungões, setor em que a Blue Man é imbatível. A ala feminina veio com biquínis realistas, sem enfeites demais, em estampas de tecnologias digitais, padrões de bandeira de fórmula-1, grafismos, borboletas, quase todas em tons frios. Gostei da falsa superposição que fingia um biquíni preto e branco, mas havia uma Lycra cor de pele, completando um maiô. Foi moda praia autêntica, para quem curte praia.

Ficha: direção: David Azulay; estilo: Marta Reis e David Azulay; arte designer: Francisco Freitas; stylist: Felipe Veloso; beleza: Max Weber; sapatos: Louloux; trilha: Mauro Lima, Fabio e Fael Mondego

Thursday, June 19, 2008

Alexandre Herchcovitch
(masculino)

O drama de territórios ocupados, em guerra, com todo tipo de problema político foi a bandeira desfraldada pelo Herchcovitch na coleção masculina e na feminina, também. Macacões com botões de uniforme, estampas de selvas tropicais e padrões em gobelin e mandalas em fundo preto foram facilmente identificáveis com o estilo típico do estilista que também enfrenta a situação de retomada da marca fora de grupos confusos. As grandes novidades são as camisas brancas, que voltam com discrição, a sugestão de acessórios tipo guerrilha, como lenços enrolados nas cabeças (no lugar dos bonés), nos pescoços, nos fios de seda presos nas platinas de ombros e as botas, com couro enrugado, modelagem alongada. O lado-saia está nos vestidos, ooops, túnicas, em algodão listrado e pregas abaixo da cintura, para completar com bermudas ou calcas skinny. A alfaiataria, como as camisas brancas, tem participação discreta, porém imprescindível. Calças com barra abotoada, um destaque.
Não é roupa de verão desenfreado, mas como quem usa Alexandre pouco se importa com o clima, tudo dá certo no final

Intervalo / impressionante, como na fila A, gente com bolsa Gucci e Marc Jacobs se estapeia por uma sacola de pano com as caveirinhas do Herchcovitch / para a colega Marly, Alexandre (eles são vizinhos, daí a intimidade) revelou que se ela gostou da coleção masculina, vai cair dura com a feminina. Ele fez tudo praticamente sozinho, até os bordados, segundo seu pai.

Wednesday, June 18, 2008

São Paulo Fashion Week

Dia 18 de junho de 2008

Meus queridos leitores, o tempo corre, a internet é lenta e fica difícil postar como eu gosto. Vamos tentar, mesmo que corte a cobertura do Fashion Rio. Depois, compenso.

Movimento

Tininha Fontes tem tudo para ser um nome importante (mais do que já é) na moda-praia. Seus modelos têm personalidade, detalhes diferentes como as alças de babados e as tiras múltiplas nas costas, sem falar nas belas estampas. O universo selvagem rendeu maiôs com estampas de folhas, aplicações de metal, biquínis de laço lateral, ou calcinha bufante. Até a tanga mínima, que desnuda o bumbum, ela traz de volta para o verão.
Falta algo pessoal para este upgrade de branding. O mesmo acontece com excelentes profissionais como as estilistas da Coven e da Drosófila, tímidas.
Temos que começar um movimento de mídia training, para estas pessoas encontrarem seus lugares merecidos no pódio da moda brasileira.

Ficha técnica: estilo: Tininha da Fonte; direção: Zee Nunes; style: Daniel Ueda; cabelos: Daniel Hernandez; ceneario: Clésio Regis; trilha: Zé Pedro

Uma
Um belo desfile da Raquel Davidowicz, casada com o Roberto, filho da Sofia e do José, da Deblu, uma das grandes marcas da moda brasileira. Tinha que lembrar disto, porque Raquel herdou o talento de moda dos sogros, quer dizer, seu trabalho tem um passado, e representa muito o futuro da moda. Porque om que apresentou hoje é uma solução estilizada para o que se pretende fazer com reciclagem. Raquel mostrou que papel em tirinhas inspira vestidos com textura elaborada, tecido emborrachado parece pneu usado, e fica perfeito em tops com prensagens. Estas peças simbólicas foram acompanhadas por pantalonas e saias-calças pretas, neutras e impecáveis.
Para os homens, que desempenham parte importante nas coleções da Uma, Raquel sugere ternos com bolsos nas mangas, em tecido empapelado. As calças são curtas e estreitas, sem ajustamento, e têm cores fortes, como laranja.
Por enquanto, é moda feita com lixo e rejeitos fakes, mas sinalizam que basta descobrir uma forma de tornar confortáveis os pneus e trapos velhos, para quem sabe, reutilizar de verdade todo um material desprezado, que ficará melhor ocupando um lugar no nosso guarda-roupa do que se acumulando nos aterros sanitários e lixões

Ficha técnica: estilo: Raquel Davidowicz; direção: Roberto Davidowicz; trilha: Hissato; make: Vanessa Rozart, da MAc; cabelos: Juliana Barbosa

Friday, June 13, 2008

Fashion Rio
Terça-feira, dia 10 de junho de 2008

Desfile externo, fora do abrigo do estacionamento garantido, do conforto da sala fechada e do lugar onde deixar as bolsas, ninguém merece. Portanto, foi no maior mau-humor que saí de casa para o MAM, para o desfile da Tessuti. Claro, não havia vaga, fazia o maior calor, e só consegui lugar seguro, sem riscos de reboques e cia., no aeroporto Santos Dumont. Depois de léguas a pé, debaixo do sol, chego lá e o desfile tinha começado – o lugar que sobrou, óbvio, debaixo do sol.
Mas foi a primeira das muitas surpresas do dia. No lugar da Clara Vasconcellos, que saiu da marca, atua a estilista Fafá Cosenza, que cumpriu muito bem o dever da boa coleção. Acabou sendo um dos melhores dias da semana, e ainda deu tempo de tomar um revigorante cafezinho no aeroporto.
A nota destoante foi o almoço. Não deu tempo de aceitar o convite da Cláudia Simões e me deliciar no Barracuda, restaurante da Marina da Glória, tive que me contentar com salgadinhos do Fashion Business. Horríveis.

Tessuti
Tons claros, refrescantes, beges e marfins, abriram os trabalhos em vestidos com pregas religiosas (na horizontal), saias tulipa, de cintura alta e camisas com bordados no decote, de um lado só. A linha é estreita e longilínea, de comprimento pelos joelhos, elegante. Os fourreaux falsos são na verdade roupas duplas, um over de organza branca ou clara e um vestido colorido por baixo. Muita assimetria por conta de mangas de um lado só, alguns belos florais abstratos em quase-quimonos. Na série final de longos, um tomara-que-caia cinza, uma amarelo com franzidos e um vermelhão, para mulheres exuberantes. Das referências marítimas que grassam na semana, ficaram os cabelos soltos e molhados, e o barulho das ondas na trilha, junto com o canto do chafariz dos jardins do MAM

A mais: a caminho do desfile da Cláudia Simões, entramos no Fashion Business. Está lindo, muito bem montado e pelo jeito, com boas coleções, sem aquele ranço de feira de artesanato. No primeiro balcão, a hipnose das galochas estampadas, botinhas de poás, xadrezes ou floridas, qie fazem todas as garotas pararem em frente às prateleiras da Cosse Representações, que traz as gracinhas da China / Sergio Mattos, da agência 40 Graus, lança o primeiro cursdo superior de modelo publicitário e moda. Serão três anos, na Gama Filho / nas mãos da assessora Bia Zany, a carteira super-versátil da Cavalera. Parece uma agenda, cheia de compartimentos, e por fora, é uma bolsinha muito da fina


Cláudia Simões
Foi o primeiro da Cláudia no Fashion Business, que desde janeiro conta com uma ótima sala de 400 lugares para desfiles. Começou com a atriz Monique Alfradique pendurada em uma escada de pintor, sob uma chuva de estrelas prateadas, meio sem pé nem cabeça. Ainda bem que logo vieram as roupas, inspiradas no Sonhos de uma noite de verão, de Shakespeare e na alegria das paixões. A tradução tem vestidos-quimono navy, com metais aplicados no contorno, o primeiro usado por Guisela Rheim; chemises de seda também com aplicações nos punhos. Todas as peças levam um detalhe destes, que enriquece sem complicar nem encaretar o look. Podem ser usadas dia e noite, com requinte e modernidade. Destaque para a saia que mistura estampa cashmere e barra florida, o longo com estampa de tulipas e o tubo com círculos bordados nas laterais. Super-elegante, a moda da Cláudia, com um toque futurista e muito feminina.


Filhas de Gaia

Outra boa surpresa! A Claudia só não foi, porque eu já havia visto a coleção, que fez parte de algumas prévias. Mas a Filhas, como só conversei com a Renata Salles por telefone, me surpreendeu muito. A dupla Renata e Marcella (Calmon) sacou a falta que havia de roupas para ocasiões especiais, com toque jovem e sofisticado. Para quem conhecia o trabalho na casa da Gávea, onde elas exibiam malhas estampadas, foi incrível ver a qualidade da costura e da modelagem nos vestidos curtos de seda e tafetá, com estampas de rosas deturpadas, gráficas, e montagens em pregas e drapeados irregulares. Letícia Birkheuer desfilou, linda.
Styling: Rogerio S; sapatos: Louloux; beleza: Lavoisier; estampas: Gabriel Oliveira

Homem de Barro

Uma graça, as histórias da Aline Rabello e do Marcio Duque, em torno dos cartuns e de caças a tesouros. Vestidinhos de babados, curtos. Retalhos montados, formando tecidos novos, um trabalho que só a Aline mesmo enfrenta, porque cada retalhinho é queimado com cigarro, um a um. “É minha marca registrada, vou fazer sempre estes detalhes”, declarou a Aline, em visita à redaçãozinha do Jornal do Brasil, onde escrevo os textos. Na Homem, há bermudas cargo, mochilas com flores aplicadas, estampas de corujinhas, pássaros e folhas. Em destaque, todos os casaquinhos, mesmo sendo coleção de verão. Ar condicionado existe para quê?

A mais: na platéia da Apoena, Isabel Fillardis / a marca de Brasília participou de duas edições da SIMM, de Madri e do salão do Prêt-à-porter de Paris. Agora, já com muitos pedidos a serem entregues para o mundo, deve pular os salões de verão na Europa


Apoena
O futuro, tema da coleção, foi sacada da Katia Ferreira, enquanto ouvia a música “When I’m 64”, dos Beatles. “Saquei que falava do futuro, e decidi seguir por aí”, contou Katia.
Um jardim bucólico, em branco fez o cenário para os minis de flores brancas sobre branco, o patchwork de quadrados rabiscados, o casaco-vestido com bolsos, os chemises superpostos a saias e casacos e a sobreposição de camisas, uma verde, outra azul e a terceira, em vermelho. Atenção: nada de flores e rabiscos estampados. É tuuuuudo bordado, acreditem. Destaque tipo tem-que-ter: os boás de tecido, enroscadinhos nos pescoços.
No final, uma concessão ao espírito tradicional das cooperativas, com as saias feitas com bordados expressando os desejos futuros das artesãs. Mas Katia quer se afastar deste tipo de marketing que pede solidariedade ou pena. Ela e suas colaboradoras da periferia de Brasíia querem fazer MODA.
Styling: Pedro Sales; cenografia: Bill Macintyre; beleza: Ricardo Maia Castanheira; jóias: Carla Amorim

A mais: as trilhas até agora sempre incluem Beatles. E um pouco de Caetano, Betânia e Gal. Os anos 60 dominam mesmo


Monday, June 09, 2008





Fashion Rio
Dia 8 de junho de 2008

A latinidad predominou nesta noite. É o pretexto para indicar que o verão terá cores mais alegres – rosa, vermelho, laranja, amarelo-limão, azul, verde -, mesmo que o preto continue sendo uma base. Mas nota-se que pelo menos até agora, o cinza deu uma sumida! Não era para sumir, ainda, segundo as previsões: deveria vir mais claro, mais frio, mas estaria presente, principalmente na malha chic e nos linhos. Vamos ver o que acontece até o final da semana.
Por enquanto, deu México na cabeça, muita nostalgia dos anos 60, e o eterno toque oriental que Walter Rodrigues não abandona.

Thaís Losso
Thais saiu do container. A estilista que já emprestou seu bom-humor à Cavalera, Zapping e à Sommer, decidiu finalmente abrir a marca própria. Estreou aqui no Rio, com um desfile feminino e colorido, recheado de vestidos rodados, com barras de anáguas estampadinhas por baixo, mangas bufantes estampas e bordados florais. As meninas de cabelos longos e crespos, em todas as cores de pele, homenageavam a personagem Bete, a feia, da novelinha mexicana. Nenhuma era feia, tudo tem limite, ora. O desfile foi no meio da praça formada pelos containers, onde estão expostas as coleções da Muggia, Soul Seventy, Thais, Rita Wainer e os lindos figurinos em Tyvek (ou não-tecido) criados por Lucinha Karabtchevsky e Claudia Koepke para a ópera Fidélio. Todos em preto ou branco, e claro que perguntei se este material agüentou uma temporada. “Agüentou duas semanas, e algumas peças que estavam guardadas desde 97, feitas para Orfeu, de Monteverdi, estavam perfeitas”, respondeu Lucinha, dentro do seu container todo forrado de branco.



Santa Ephigênia
Lindo, a começar pela sala. A Ipanema, a menorzinha de todas, foi arrumada com cadeiras de platéia de alta-costura em torno de uma rotunda coberta de hera, com aberturas-portas por onde saíam as modelos. Uma espécie de Chanel herbal. As roupas, lembrando os anos 60 e 70, pelo colorido alegre em istrado desencontrado, nasceram na cabeça do Luciano Canale depois de uma conversa com Glorinha Paranaguá. No tempo em que ela era embaixatriz, foi a um piquenique de domingo dos Rotschild, nos arredores de Paris, e descreveu as maravilhas da festança. Dalí, Luciano tirou os chapéus de abas largas, confeccionados por Denis Linhares, as sandálias coloridas, em vários materiais, da Roberta Wright, e fez um mix de Copacabana com Paris, uma nostalgia que resultou muito bem em saias de estampa toile-de-jouy bordada com pérolas de diversos tamanhos, em tules com desenhos cashmere bege, também rebordados com pérolas. Como definiu Luciano, o tal piquenique inspirador deve ter sido um domingo bem dimanche.
Uma fofura, a microbolsinha de alça de corrente, feita pela Glorinha.

Virzi
Que bom que a Marcella assumiu de novo seu lado teatral e culto! Ela preparou a platéia para uma coleção fofa, muito colorida, ou no mínimo, de lenços nas cabeças. Nada disso, era só uma resposta estratégica para desviar a atenção. O que se viu, na passarela com boca-de-cena decorada com um labirinto de grama (um maze, para os ingleses), a bailarina Danielle Rodrigues, da cia. Deborah Colker postada ao fundo, e belos vestidos, saias e blusas montadas em tiras dobradas, que deram volumes murchos, muito modernos. Verdes, rosa, azuis estão entre as cores. Das matriochkas, viu-se o galão de rosas, aplicado em um retângulo na frente de um casaquinho ou na lateral de calças.
Nos acessórios, destaque para os colares de cristal e pedras. No final, Danielle saiu dançando e se equilibrando nas sebes



Totem
Mais um ângulo dos anos 60, vistos por Fred d’ Orey. Mais precisamente, 1968, com a Tropicália, as passeatas, o auge dos Beatles. Bia Lessa incluiu figurantes portando espelhos em direção à platéia, segurando faixas com fotos de manifestações e poemas de Wally Salomão, dançando e tirando a roupa, para lembrar Hair, o musical-ícone da época.
Engraçado, logo a Tótem, que sempre é tão colorida, começou em cores mais calmas, estampas em preto e branco. Mas as formas aqueceram, com os jeans skinny/boca-de-sino, os bolsões de couro franjado (dos primórdios da feira hippie), os vestidos curtos e soltos, com desenhos geométricos. Muitoa boa foi a parte de tricô, com listras em ziguezague em tons claros sobre fundo cru. Um exemplo, o vestido de Bruna Tenório, com alças de couro. Ao som de músicas de Caetano, Gal, Mutantes e Beatles, o desfile acabou com um casamento hippie, com flores de metal em vez de grinalda e buquê, o suposto noivo com um belo blazer de linho azul.



Walter Rodrigues
Walter voltou a desfilar, voltou ao Rio. Trouxe uma Audrey Hepburn com inspiração chinesa, depois de uma viagem feita pelo estilista em março. Nada de quimonos ou trajes marciais. O que se viu: vestidos estreitos, shape ajustado, decotes tomara-que-caia, saias pouco abaixo dos joelhos. É o único comprimento elegante para uma saia justa, afinal.
Quase todo em preto, o desfile mostrou a faceta típica do Walter: saber lidar com novos materiais e dar funções sofisticadas para materiais técnicos e práticos. Como os elásticos da Hak, que formaram um vestido inteiro, em verde-fosforescente. Ou o incrível laminado de PVC preto, da Bannypel, empresa de couros com quem Walter desenvolve coleções em couro. O lado Couture foi satisfeito pelos bordados de temas chineses em clássicas con tinhas e miçangas, canutilhos e plumas. Até as franjas foram bem resolvidas, com fios longos presos na barra da saia, retorcidos até o decote.
Enfim, a noite que começou coloridona, acabou se rendendo ao preto, nas lindas propostas do Walter Rodrigues

Saturday, June 07, 2008

Fashion Rio / dia 7 de junho 2008



Primeiro dia: conceitual

Há esta eterna discussão na moda. Um evento tem que mostrar coleções comerciais, como faz Milão, ou deve incluir o lado conceitual, a roupa fantasiosa e artística, tipo Londres e Paris? Valem as duas coisas, porque o que ainda ninguém imagina que vai vestir vai dar idéias para o Futuro, são roupas de laboratório. Às vezes, são apenas looks, como acontece na Dior, onde John Galliano reinventa peças simples em jogos de misturas, maquilagens e ambientação performática. Quando se vê na vitrine, são quase básicos, de tão usáveis. E não é só porque acostumamos com a proposta.
O primeiro dia, aliás a primeira noite do Fashion Rio foi assim. Começou com as mulheres metálicas da Luana Jardim, mineira que recicla ferro gusa, pedras e até sobras de ouro e faz a Specular. Marca super-conceitual, cheia de saias-abajur, montadas em espiral, foscas ou polidas. Mas também de modelagem régia nos corpetes, com direito a bojos perfeitos. Muito bonito, desde o visual de estilo até o elenco, com homens de torso nú e saias de metal, e mulheres de todos os tipos. O que pode sair daí para nossos guarda-roupas? O corte das saias em espiral, os corpetes, desde que feitos em materiais mais amigáveis. Digo isto, porque fiquei imaginando como seria sentar com uma saia daquelas.



Depois foi a vez da Lilica Ripilica, que lança moda para as menininhas. Elas, que adoram remexer na penteadeira e no guarda-roupa das mães. Ok, ok, nem existem mais penteadeiras com espelhos triplos, e guarda-roupa virou closet. De qualquer jeito, sempre haverá uma garotinha cambaleando de salto alto e boca borrada de batom, e foi esta a partida para uma adorável coleção de vestidinhos soltos em estampas de flores meio borradinhas, como se fossem molhadas de perfume, ou com rosas, a essência mais presente nas fragrâncias femininas. As cores de blush e pó estão na cartela, principalmente nas sapatilhas com pedras na gáspea ou laços, como nas tampas dos perfumes. O jeans com lacinho preso de um lado e as iniciais LR em strass sugere que o monograma da Lilica em breve terá quase o poder do outro logo famoso, o LV, da Louis Vuitton. O cenário, da tal penteadeira, era todo branco, lembrava o último da Chanel, no Grand Palais, em março



Rita Wainer preferiu fazer uma performance só para a imprensa, que depois será vista pelos visitantes do Fashion Rio em vídeo no container que lhe coube. Seguinte: deusas gregas que comandam o destino dos mortais soltavam os fios da vida, com relógios amontoados de um lado. Em volta, passavam as mortais, as modelos com vestidos de volumes formados no exercício da moulage. Volumosos, drapeados, assimétricos, combinando estampas diferentes, em comprimentos curtos, não são exatamente feitos para qualquer uma e qualquer dia. Parecem bololôs de tecidos, com continhas douradas esparsas. E são bonitos, de ver, de olhar, de admirar um trabalho de estilo, que é arte.

O conceitual tem lugar certo nos grandes eventos. Obriga-nos a parar para pensar, a descobrir do que um criador é capaz, com alguns metros de tecido. Ele nem pensou em nós, que só queremos uma roupinha para ir a uma festa, para trabalhar, para a balada. Ele foi adiante.

Intervalo / foi uma noite linda, sem chuva nem vento. Ainda bem, senão era capaz das lindas saias da Luana enferrujarem / Eloysa Simão estava de casaco Coven e botas e legging Calvin Kein / Costanza Pascolato vestia casaco Miu-miu. “É velhinho!”, declarou. Fizemos a foto juntas, e ela acrescentou “são 400 anos de convivência!” / Giuliano Donini, líder do grupo Marisol, dono da Lilica, está em busca de marcas para alimentar seu grupo de moda / A Hak patrocina a Redley e a Cantão. A Têxtil Picasso, 14 marcas, entre Fashion Rio e SPFW.

Sabem a diferença entre patrocínio e apoio? Patrocínio entra com tecido e verba. Apoio, só com tecido, que pode chegar a 800 metros, depende do acordo feito com a marca.

Friday, June 06, 2008




Vai começar o Fashion Rio!

Esta é a sala mais importante do dia de hoje, véspera da abertura do Fashion Rio, na
Marina da Glória. É a sala do credenciamento, na Approach, onde cerca de mil credenciais são entregues entre hoje e amanhã.
Neste sábado, depois da coletiva de imprensa, quando falam Eloysa Simão, diretora do evento, Gouveia Vieira, da Firjan, Flavia Justa, da Oi, e todos os patrocinadores, teremos a apresentação da Specular, roupas feitas de pedras.

Esta é a agenda do primeiro dia

Dia 7 de junho ; Sábado
17h: coletiva (Marina da Glória)
18h: Specular (Marina da Glória)
19h30: Lilica Ripilica (sala Copacabana)
20h30: Rita Wainer (sala Ipanema)

Tanto o site www.estiloiesa como este iesa-rodrigues.blogspot.com terão comentários no final do dia. A cobertura total on-line estará no Terra.com.br. Até lá!

Sunday, June 01, 2008

Obrigada, Yves Saint-Laurent




Este belo e ousado nos deixou neste domingo, depois de 71 anos de muita arte, criatividade e crises. Ainda dei a sorte de assistir aos seus desfiles, em Paris. Vi várias exposições, até comprei um casaquinho de rayon, que devia ser uma licença, porque foi em Nova York. Vi a coleção cigana, as Sherazades, as russas. As combinações de cores, nossa, quanto devemos ao garoto que gostava de misturar rosa com vermelho, turquesa com verde, laranja com vermelho, em cartões e convites que desenhava e eram enviados para os convidados. Este senso de cores era de artista, porque ele adorava arte, homenageou vários pintores em roupas que ficaram célebres, como os vestidos inspirados em Mondrian.
Tímido, porém ousado, fotografou nú para Jeanloup Sieff nos anos 60, foi um dos primeiros a propor transparências na passarela, a contratar modelos negras e a olhar para a rua, em vez de se prender aos padrões das Maisons, para criar suas coleções. Lançou o smoking feminino, a moda safari.
Há algum tempo vivia recluso, depois da venda da marca para o grupo Gucci-PPR. Mas nos deixa uma heranca de cores, estilos, ousadias, bom-gosto e muita beleza. Perdemos um criador original, que sabia inventar modelos, sem perder a visão de que trabalhava para vestir as mulheres.
Só temos a agradecer por sua vida e sua arte a serviço da moda.