Monday, January 28, 2008




Não foi na Parson's em N.Y., na Saint Martin's em Londres ou no curso da UFMG em BH que aprendi o muito do pouco que sei no que se refere a ouvir a voz, entender a alma e dialogar com os panos. Agora que completo 25 coleções, vasculho a história de minha formação e vou até o meu primeiro emprego, numa loja de tecidos.


Neste momento movediço, em que tudo no mundo muda de lugar o tempo todo, coisas e profissões se extinguem e tendemos a guardar a memória dentro de uma caixa, na última prateleira da estante do quarto de despejo. Nunca escondi de ninguém que a memória é o meu prato predileto. Sendo assim, nesta estação investigo este universo em extinção, quando o cheiro emanado do corte de algodão e do linho ou o emocionante barulho empapelado do tafetá no ar, junto a fitas métricas com os números quase apagados, nos proporcionavam a experiência mágica da busca da construção do personagem principal nas mãos dos homem comum.

Com certeza, em pouco tempo a loja de tecido será coisa do século passado. E já hoje, no lugar das preciosas fazendas, quinquilharias chinesas ocupam as prateleiras mudas sem alma, expulsando para o esquecimento o exercício de autonomia sob o próprio corpo na escolha do tecido e do feitio prontos para o batizado, a formatura, o casamento e a festa.

Ronaldo Fraga


Este foi o texto de apresentação da coleção que fechou a edicão de inverno 2008 da São Paulo Fashion Week. Quando soube que o tema era a loja de tecidos, tremi: pensei que meu querido Ronaldo ia se render à cópia, lembrar uma coleção alheia, a primeira do Antonio Marras para a grife Kenzo. O pai do Marras tinha uma loja de tecidos, o cenário era como uma prateleira, cheia de peças coloridas, por onde as modelos circulavam.

Mas a história era diferente. O Ronaldo trabalhou entre algodões e tafetás – só quem conheceu de perto, lembra do perfume dos tecidos e do barulho que faziam ao serem cortados. Eu também gostava disto, e imaginava os vestidos que podiam ser feitos.
O cenário do mineiro era muito mais poético que o francês, com roupas de tule branco (lindonas) sobre um gramado verde. As roupas exibiam uma maestria de corte inédita nas coleções dele, com requintes de golas e modelagens dignas de ateliês.Ao mesmo tempo, era visível a homenagem às lojas, com amostras de tecidos sobre os vestidos e pedaços de aviamentos presos de um lado de alguns modelos, além dos rabiscos típicos de um molde antigo, de papel.
Foi um belo fecho para a semana paulistana, só não diria que foi de ouro. Porque acho que foi de tecido, matéria-prima desta nossa paixão que é a moda.

Foto Ines Rozario


Resumo das semanas
Como previsto, dei pouca atenção ao próprio site, estava às voltas com coberturas para o Oi e o Terra. No lado prático, havia a velha confusão de falta de internet. Se no Rio, o tempo era curto nos intervalos, em SP, a sala de imprensa tinha poucos cabos de rede e o sistema wireless era um tanto irregular. Ah, vou postar tudo de madrugada, no hotel!, planejei, animada, no primeiro dia. Em vão: no hotel Slaviero da Alameda Campinas, a equipe é um amor, super-atenciosa. Mas a internet, não quer nem saber. Nem paga, funciona, se muitos hóspedes estiverem conectados. Imaginem, cada quarto com um notebook a mil. Foi isso. Mas tinha que falar do Ronaldo. E vou falar de todos, porque o inverno está longe, e estas coleções vão dar o que falar (e escrever) quando chegar o frio.