Wednesday, January 09, 2008

Fashion Rio dia 8 de janeiro 2008






Segundo dia, a coisa fica séria. Às 11, corrida para Copacabana, para o Copa (o hotel famoso), missão assistir ao Victor Dzenk. Sabem quando tudo é planejado direitinho, e dá certo no conjunto? Pois foi assim, desde a ambientação nos salões que parecem dourados durante o dia, até o aproveitamento em detalhes de toda a tradição que o hotel mantém acesa. Victor usou fotos antigas e convites de bailes para fazer estampas – foram cerca de mil imagens digitalizadas, segundo Ronit Fischer, da Dalutex, que estampou as malhas, sedas e jérseis de rayon. Shows de Marlene Dietrich e Carmen Miranda viraram estampas de minivestidos, penas de pavão simbolizaram os bailes de carnaval e a boca dos Rolling Stones representou o show recente, na praia em frente ao hotel. Muita saia curta, franjados de miçangas e cristais, jaquetas de couro sobre vestidos delicados, um belo show de estilo e de conceito.

Intervalo / enquanto o prosecco Canchiolli rolava no brunch, o mensageiro David Dssadti dava entrevistas, por ter sido o acompanhante de Guisela Rheim na passagem de um longo, com a mesma estampa das malas que o David levava, no tradicional carrinho dourado de hotelaria / Eloysa Simão avisava que o Minas Trend Preview já vai antecipar o verão, de 1 a 5 de maio / Ela recomenda uma visita à multimarcas de Zezzé Duarte, que leva para BH peças de Matthew Williamson / Regina Lundgren vai comprar mais Victor Dzenk / Narcisa Tamborindeguy estava de sandálias Burberry, calça Seven, túnica Neon e cordão Lucia Lima / aliás, Lucia fez peças para as novelas atuais: colares para Marília Pera e faixa para Letícia Birkheuer

Novos talentos: Giulia Borges e Luciana Galeão
As duas pesquisaram formas, cada uma deu uma versão pessoal. Giulia deu um resultado garotinha, com cavalinhos de crinas coloridas nas estampas de saias e vestidos, detalhes de pregas e dobras decorando costas de saias, frente de camisas, corações em lugar de bolsos. Luciana desenvolveu mais a técnica de mosaicos que sempre apresentou, dentro de um conceito de geometrias e figuras afros, “sem fetichismos” como ela define. Fez longos em azul-marinho e verde-claro, com os mosaicos de peças feitas com madeira de reflorestamento. O elenco quase todo louro dava a impressão de turistas vestidas com roupas étnicas. Mas uma bela negra deu a referência original, no último quadro.

Intervalo / falando em madeira de reflorestamento, sabiam que o pauzinho do picolé Itália é também feito com estas madeiras? / na sexta-feira abre o portal www.rodadamoda.com.br, organizado pelo Inbracultmoda, do Robert Guimarães e do Fernando Molinari / muito rabo-de-cavalo na passarela. Que significa: cabelos longos no inverno, de novo / Ou muito aplique da Fiszpan

Apoena, romântica
Lencinhos bordados pelas portuguesas, oferecidos aos namorados que partiam da terrinha, foram copiados em bordados ingênuos ou motivaram novas pesquisas de tricôs de máquina com bordados em ponto de cruz por cima, corações desenhados viraram aplicações metalizadas. As moças que bordam e tricotam moram em comunidades na periferia de Brasília, e aprendem a encaixar seus talentos nos conceitos da moda contemporânea, graças ao empenho da Katia Ferreira, espécie de Tetê Leal (da Coopa Roca, no Rio) do cerrado. Não é feito fácil, esta adaptação, mas algumas peças comprovam que é possível. Alguns exemplos, nas blusas com laços, no suéter rosa com corações, na calça com pespontos formando príncipe-de-gales e no incrível trabalho de flores bordadas em ponto chato, no bolero e na saia retinha.

Intervalo / já havia visto de perto algumas peças desta coleção da Apoena, na SIMM, a feira de moda de Madri. Só assim, foi possível identificar as diversas formas de trabalhos manuais empregados / As artesãs vieram de ônibus para o Fashion Rio. Isto é, parte delas, porque são mais de 600, no total

Mara Mac, devaneando

Após quatro décadas de trabalho, depois de ter sido da equipe de grandes lojas, pioneira na Praça Nossa Senhora da Paz, em loja com azulejos e madeiras escuras, bem no espírito da época, com o nome Mariazinha e depois mudado para Mara Mac, esta profissional dá exemplo de capacidade de renovação. Isto nunca significou reinventar o foco, tentar conquistar à força uma faixa etária abaixo ou acrescentar outros negócios, como restaurante ou galeria de arte. Simplesmente, Mara aposta na sua clientela, que não é fixa nem corre o risco de envelhecer as propostas. Pelo desfile, que concentra um esforço de produto e marketing, nota-se que a curva de prestígio é ascendente, cada vez mais eficiente. Desta vez, a direção de Bia Lessa seguiu o conceito de refletir os mistérios da alma feminina, seus sonhos e devaneios. Piso com textos manuscritos, painel com nichos mostrando partes de corpos despidos, papel picado caindo do teto da tenda, um espetáculo, com as melhores modelos do evento e mais Michelle Alves, pela campanha do Bloqueio Não, da Oi.
Roupas fluidas, em camadas, sempre parecendo confortáveis, com aspecto amassado, macio. Calças com pespontos de reforço nos joelhos, manguinhas avulsas cobrindo o colo, nos decotes, as combinações de castanhos e roxos, os arabescos que estilizam neurônios, em roxo, laranja e marrom.
Este tipo de descrição é pouco, Mara MacDowell atualmente faz um desfile daqueles que tem que ser visto ao vivo, para curtir todos os detalhes. Antes da apresentação, para aliviar as dúvidas e dores da alma feminina, Mara presenteou as convidadas com pílulas tranqüilizantes...de chocolate (“nada como um chocolatinho para amenizar a espera de um desfile”), e quase no final do show, a trilha deu a solução para as nossas incertezas: a música dizia o básico All you need is love.

Intervalo / estas performances da Bia me deixam com algumas dúvidas existenciais. A primeira personagem foi um rapaz de preto, lendo um livro. “Hummm, deve ser Freud, Klein, Jung, algo assim, para entender o mulherio”, pensei. Depois, as modelos deixam as bolsas sobre os cubos da passarela, abandonadas. Será que estes queridos acessórios são deprimentes? Nossa, cada bolsa mais linda. Vai acabando a coleção, caem os papéis picados do teto, com texto que parecia algo jurídico ou de diário Oficial, e meia dúzia de modelos-atrizes sentam no chão e começam a colar os papéis em cadernões. A esta altura, desisti de seguir a história, achei tudo lindo, emocionante...e super-usável a partir de março, quando o outono vier.


O look viajante da Gisele, na Colcci.