Sunday, March 04, 2007

A cor do inverno é preto

...mas há espaço para fúcsia, rosa, azul e muito cinza...

Iesa Rodrigues

Antes de falarmos de cores e dos desfiles de hoje, lembramos do homem do vermelho, Valentino. A assessoria apressou-se a desmentir que o italiano que está na moda há 46 anos pretenda se aposentar agora. Ok, Signore Valentino, ficamos felizes.
Quanto aos outros coloridos, temos dois exemplos que confirmam a liderança do preto: Marc Jacobs para Louis Vuitton e o libanês Elie Saab.
Elie, que no desfile de outubro usou apenas o dourado em microvestidos, agora priorizou o preto com lurex prata ou paetês pretos bordados. O estilo está bem menos sexy, mais elegante, mesmo tendo minissaias de couro acompanhando os casacos justinhos marcados por cintos obi em vinil preto. Os tafetás dos vestidos de cintura fina e saias rodadas têm acabamento lustroso, e o black jeans fica quase irreconhecível, tratado como tecido nobre. É verdade que passaram também musselines listradas em verdes e rosas ou o jérsei de seda em azul-petróleo (que os franceses gostam de denominar azul-pato, porque é a cor do pescoço dos bichinhos), em longos e minis baby-dolls em ameixa. Mas as barras e decotes ganham sempre bordados de paetês pretos, contrastantes. O desfile do Elie Saab tem um elenco de primeira linha, as louras de cabelos longos e lisos seguiram ao ritmo de Madonna, dando o recado do conceito geral, que era “instinto de poder”.
Fraco: um caban em lã ameixa, fora do contexto. E a platéia vazia
Forte: o glamour da coleção, fácil de imaginar sendo usada. Os cintos obi, de vinil

Marc Jacobs – cada vez mais bonito, sem óculos, de cabelos curtos, camisa azul e calça jeans – pensou no quadro Moça com brinco de pérola, do holandês Jan Vermeer , associou ao filme com o mesmo título e tema, e convidou a loura Scarlett Johanssen para a fila A na tenda montada na Cour Carré do Museu do Louvre. Todas as modelos usaram boinas flamengas, algumas portavam colares tipo fio metálico com penas, outras se aqueciam com echarpes feitas com grandes elos tricotados, presas por alfinetes de cabeça em forma de cubo. Falo primeiro dos acessórios, porque eles têm todo o valor do mundo, para a marca Louis Vuitton. Tanto que o título geral, parodiando Vermeer, era “a garota com bolsa monograma”. Quer dizer, os modelos de bolsas, carteiras e maletas voltam a evidenciar o logotipo LV, entremeado de tiras de pele, tacheados, tressês e efeitos degradês. Além dos acessórios Jacobs consegue atrair a atenção para as saias retas, em lã lamê fosco, os suéteres-camisetas de cashmere laranja ou azul-claro. Ou para as camisas de algodão cirê, com saias de lamê e botas de aspecto molhado. Há um visual de chuva em várias peças, incluindo até galochas de crocodilo! O ameixa aparece na camisa com cinto preto fininho, e o final encantou pelos degradês do azul ao rosa, em saia e do azul ao laranja em blusa que fez Scarlett virar a cabeça para acompanhar os detalhes. E o preto, onde ficou? Nas calças de veludo, no casaco de cashmere, com franzidos, no modelo de alças largas, nas saias com laterais em pregas arredondadas, nas calças de motociclista.
Fraco: o calor dentro da tenda, digno dos tempos em que o desfile era na estufa do parque André Citroen
Forte: os suéteres de cashmere, de mangas 3/4

A semana parisiense acabou bem, com o show da Vuitton. Aparentemente, não há grandes surpresas na moda. Sente-se uma busca por definições de perfil, identidade ou pelo difícil objetivo de se destacar entre tantas opções vistas nos centros lançadores – Nova York, Milão e Paris. Quem vende o quê, para quem? Os homens, até agora vistos como grandes esperanças de novos consumidores para a moda, limitam-se a escolher entre cremes após-barba ou desodorantes assinados, na ala masculina aberta próxima à porta de entrada da Sephora, a loja de cosméticos e perfumes pertencente ao grupo Vuitton. As novidades dos desfiles são devidamente domesticadas para serem admitidas nas vitrines, e o que se vê nas ruas é a calça cargo e o jeans, com camisetas e suéteres de tricô, com blazers quase clássicos ou parkas.
O lado artístico da moda atrai os convidados para Paris. Aqueles 10 minutos de performance muitas vezes valem o vôo de 12 horas (no nosso caso, dos brasileiros) ou de sete horas (para a turma de Nova York) ou sei lá de quantas horas ou dias, para o pessoal do Oriente. Só que arte não vende, dá prestígio. Christian Lacroix, por exemplo, reduziu bastante o alegre conceito artístico, em prol de uma comercialização mais fácil, com tailleurs pretos em profusão. Já a Tara Jarmon, rede de butiques sem muito luxo, conseguiu o meio-termo de usar estampas tiradas de obras de um artista plástico, Peter Zimmermann, em vestidos com barras de babados, que vão para a vitrine custando 600 euros (cerca de R$ 1.620). E vende bem, consegue competir com a rede espanhola Zara e a sueca H & M, que adaptam rapidamente as idéias dos grandes desfiles, com preços baixos.
Quem compra o quê, por quê? Precisamos de mais uma calça jeans? Teremos frio para mais um casaco preto? E a bota de cano longo, tão linda na vitrine, será uma tortura nos nossos pés?
O mistério da moda existe. Aquele momento em que Scarlett Johanssen girou a cabeça para ver melhor o vestido degradê. O instante que notei o pesponto dourado da calça jeans da Zadig & Voltaire. São segundos que desencadeiam obsessões de consumo. É disto que vive a moda.