Monday, February 26, 2007

Luz na moda

Iesa Rodrigues

Depois da campanha contra a anorexia das modelos, deve sair o protesto contra a tortura dos saltos altos e dos efeitos cenográficos que exigem esforços das meninas que vivem nas passarelas do mundo. Pelo menos a platéia ficou nervosa com a dificuldade do elenco de Viktor & Rolf de caminhar e carregar armações metálicas (espero que de alumínio, que é leve), com três a oito spots de lâmpadas brancas e uma caixinha de som, que forneciam luz e música diferentes para cada garota.
Os holandeses Viktor Horsting e Rolf Snoerens continuam assinando lindas camisas brancas, bons casacos pretos e revivem tecidos lindos, como o tipo cloquê, de um casaco preto. Para disfarçar o encaixe das armações, inventaram mangas enormes, golas gigantes e amarraram xales em torno dos tubos das lâmpadas. As músicas, em volume baixo, variavam, consegui identificar a ária na corda de Sol, de Bach. Isto é, cada modelo era um desfile à parte.
Foi mais um show de Viktor & Rolf, com uma visão prejudicada pela pequena sala do Carreau du Temple, na região da Republique, em Paris. Mas vai reforçar a imagem ousada deles, e divulgar os dois perfumes lançados pela L’ Oréal, o FlowerBomb (feminino, já à venda no Brasil) e o Antidote (masculino, em lançamento na Europa)
Fraco: o empurra-empurra na entrada. Dispensável
Forte: as camisas brancas, o vestido em cloquê preto

La Tulle

A coreana Cho Sung Kyong convidou para o elegante salão do hotel Westin, perto da Place de la Concorde, depois do desfile chamou para um pequeno brunch, com finger sanduíches, docinhos mínimos, champanhe e refrigerantes. Tudo exatinho, gostoso e sem parecer sedução. Afinal, não seria por um biscoito de camarão que os convidados diriam que a roupa é sublime. Aliás, pode nem ser, mas tem o valor de uma alfaiataria impecável, vista nas calças curtas e longas, nos casacos com pregueados nas costas. Um jeito meio jazz-band dos anos 40, interessante. Muito paetê preto ou cinza em minivestidos, muito preto e branco em casacos xadrezes. Os tecidos lembravam as escolhas de Andrew GN, quando vieram os pied-de-poule dourados ou estes xadrezes com brilhos em preto e branco. Apenas três estampas movimentaram a seleção: papoulas lineares em preto e branco, elos em rosa, verde e azul, mais flores em preto e branco.
Fraco: calças, principalmente os jeans, com o cós baixo demais.
Forte: adorei um modelo que tem duas tiras de cristais ao longo das laterais das pernas. Vi na passarela e usado por um dos assessores de imprensa. Versão cintilante do estilos Adidas
Fortíssimo: os sapatos, lindos. Da própria Cho. Um deles, o clássico Brogue feminino bicolor revisitado, idêntico ao que a Swains faz, há uma década, no mínimo.

Luiz Buchinho
Pela primeira vez – não vale o que vi em São Paulo, em 99 –consegui assistir ao desfile deste estilista do Porto. Sempre acompanho seus trabalhos nas revistas lusas, mas só agora vi na passarela em Paris. É o quinto solo do Luiz, que faz moda há 16 dos seus 37 anos, vende na terrinha e em varios paises da Europa. Tem um estilo elaborado, apesar de aparentemente simples. Porque é quase todo em malha cinza, com entalhes de lurex cobre e estanho nas sanfonas, ou de couro nos recortes de mangas. As formas sem definição e o aspecto amassado ajudam a dar uma impressão de roupa confortável, fácil de usar. A trilha é dos geometrismos de Balenciaga by Gesquière, mas Buchinho suaviza o resultado final, mesmo encurtando bastante as saias. Parece que as minis são quase obrigatórias, a julgar pelos desfiles da semana.
Fraco: o balonê ou bolha nos vestidos em malha cinza. Virou banal
Forte: as parkas longas, o contraste das calças saruel com as peças utilitárias. E o próprio Luiz Buchinho, simpático e sem pretensões